Remontando

Sempre que desmontamos e remontamos algo peças ficam perdias pelo caminho, tem sempre aquelas que jamais voltaram a forma original. Faltam partes, sobram linhas tortas, tudo fica graciosamente descompassado. É uma simetria irregular  uma arte pós-moderna. Vão se as retas e as dobras sem barulho e ficam as histórias.

Há quem diga que é um trabalho mal feito, falta de profissionalismo. E se o trabalho de remontar for feito por um homem é sinal de desatenção, inutilidade. Que homem não sabe montar um guarda-roupa, não sabe ligar uma televisão no lugar certo. Que homem no mundo não seria capaz de reprogramar o vídeo cassete ou conectar todos os cabos do computador?

É praticamente um insulto à masculinidade de qualquer homem, todos se sentem ofendidos por terem fracassado, por não terem sido mais fortes ou capazes, por não terem superado a técnica e a experiência de um profissional. Mas sempre que acontece algo do tipo comigo, não me ofendo nem me menosprezo, muito menos fico levando os olhares de repreensão comigo.

Acredito que as peças que ficam perdias pelo caminho fazem um sacrifício para um bem maior. A construção das lembranças. Não há história sem perdas, não se vive só de felicidades, a todo tempo estamos conquistando e perdendo, chegam os anos, vão se os amigos, os velhos amores, as velhas promessas. Conquistamos a experiência de saber que para uma próxima mudança o guarda-roupa ficará na casa velha  ou desta vez, será montado por um profissional. Mas conquistamos marcas na mão e aprendemos a lição de  que para se viver é preciso saber perder, tudo em prol da manutenção da história.

Aprendi que é possível acreditar em um amor mesmo depois de já ter perdido a fé nesse sentimento, aprendi que mesmo depois de se perder uma grande amizade é possível que um dia talvez, ela volte melhorada para que ambos possam ser novos amigos. Aprendi que na dor se cresce e que no amor se colhe esses frutos.

Então sigo amando, aprendendo, cultivando, desejando e sempre me remontando, pegando as peças que sobraram pelo chão e aos poucos me refazendo para sempre ir me tornarando alguém melhor.

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Só me sinto digno das minhas asas, se puder fazer os outros voarem.